Sobre a constante pergunta “Yoga é religião?” (parte 1)

por João Carlos B. Gonçalves

santuario-amareloYoga e religião: trata-se de uma questão recorrente. Essa pergunta geralmente remete não ao posicionamento pessoal de cada praticante, isto é, à maneira como cada um vê sua prática pessoal, mas ao modo como, em seu cenário de origem, o yoga foi estabelecido.

O yoga que conhecemos hoje é um conjunto de práticas sistematizadas por professores e mestres indianos no final do século XIX e início do XX. Esses professores construíram uma didática que resultou no conceito que temos atualmente de “aula de yoga”. A “aula de yoga” tem a intenção de ser um conjunto técnico aplicável a qualquer indivíduo, independentemente de suas preferências doutrinárias ou religiosas. Isto é, aplica-se certo conceito de universalismo para que todos sintam-se à vontade e possam desfrutar de seus benefícios. Muitos, porém, sentem o desejo de conhecer os sistemas filosóficos que fundamentam as práticas ensinadas nas aulas de yoga e buscam o estudo dos textos antigos, compostos, na maioria, em sânscrito. Nessa busca, deparam-se com temas comumente tratados pelas religiões, tais como ética, pós-morte, imortalidade da consciência e reencarnação. Surge assim o questionamento sobre a relação entre yoga e religião.

Há duas orientações fundamentais para tratar dessa questão. A primeira, e mais fundamental, reflete sobre o conceito de religião para os indianos antigos e procura compreender se o yoga estava inserido nesse contexto. A segunda reflete sobre o fato de necessariamente haver temas que sejam monopólio das religiões e, em caso de não serem, como seria a forma de cada disciplina do conhecimento abordar tais temas.

Quanto à primeira orientação, observamos que a palavra religião não tem correspondente no contexto da língua sânscrita antiga. A palavra “religião” é de uso geral por aplicar-se a teologias, práticas rituais e morais de diversas culturas, sendo empregada correntemente como um termo extremamente generalista. No contexto da Índia antiga, não há uma palavra que possa compreendida dessa forma, transcultural e trans-histórica, com o sentido de religião.

A palavra sânscrita que mais se aproxima da noção de religião é o vocábulo “dharma”, que, no hinduísmo, remete a um conceito bem específico de “lei”, “harmonia” ou “virtude”. Trata-se de um termo em que se unem nossos conceitos modernos de lei, no plano jurídico e no plano religioso. Não diz respeito a dois conceitos unidos, mas a um conceito apenas. Dharma é a harmonia do cosmo, da natureza, do corpo biológico, da mente e do corpo social. No contexto da literatura hinduísta, unem-se, sob a palavra dharma, tanto a observação dos ciclos naturais, como as normas relativas à conduta social.

Segue, portanto, que dharma é o conceito que faz com que hindus sejam considerados hindus, além do fato de haver uma fundamentação étnica na religião hinduísta. Os tratados de dharma são tratados de leis que prescrevem os hábitos sociais, sob a ótica da transcendência, e regulam os vários estratos sociais, conhecidos popularmente como “castas”, bem como os gêneros, provomendo assim hierarquias nas castas e nos gêneros. O dharma sustenta a vida social, ritual e doutrinária. Para ter acesso preliminar a esse tipo de literatura, sugiro a leitura das “Leis de Manu” (Mānava-dharma-śāstra) e do Mahābhārata (e a Bhagavad-gītā, que é parte dele). Em síntese, uma forma aproximada de definirmos o que é religião para a Índia antiga é buscarmos o conceito de dharma.

Feito isso, a pergunta se reformula: “Yoga é dharma?” ou “yoga está no contexto do dharma?”. Definitivamente, não. Peguemos, de início, um texto considerado como um texto fundador do yoga, o Yoga-sūtra de Patañjali, e veremos que, nele, não ocorre absolutamente nenhuma passagem em que se prescreve a adesão ao dharma. Não há o emprego desse termo com esse sentido nessa obra (apenas o emprego do vocábulo dharma com o significado de “propriedade”, no sentido de “as copas das árvores têm a ‘propriedade’ de ser verdes”). Nada, no Yoga-sūtra, sugere a organização social das castas, as obrigações de gênero e os rituais prescritos pelo dharma. Segue então outra pergunta: “em que lugar da cultura indiana devemos situar essa obra?”

O Yoga-sūtra, que é apenas o mais conhecido, mas não o mais importante para estudarmos e praticarmos isso que conhecemos hoje como yoga, está situado no contexto dos darśanas, que são as escolas de pensamento indianas nas quais se desenvolveram aquilo que hoje estudamos como filosofias da Índia ou escolas místicas indianas. Para conhecer o fundamento antigo do yoga, é necessário estudar os textos antigos da escola filosófica conhecida como sāṃkhya, o yoga de Patañjali e os tratados técnicos da tradição conhecida como haṭha-yoga, juntamente com a base filosófica do tantrismo, da qual recomendo o estudo da tradição hoje conhecida como śivaísmo da Caxemira. Nessas obras, vê-se nitidamente outro tipo de debate e reflexão. São, portanto, caminhos diferentes dentro da mesma civilização: de um lado, a regulação religiosa do dharma e, de outro, a reflexão filosófica e as experiências místicas.

Isso remete à segunda orientação: “há temas que são monopólio das religiões?” Ou seja, pode-se tratar de pós-morte, por exemplo, fora do contexto religioso? Sim, historicamente, isso vem acontecendo em várias civilizações por meio do pensamento filosófico e das místicas.

Em breve, na segunda parte desse artigo, abordarei esse tema: a diferença entre mística e religião e o papel dos darśanas na formação do pensamento indiano, procurando mostrar quão vasto é o conceito de darśana. As religiões têm como base o ritual e a coletividade, enquanto que as místicas fundamentam-se sobre a experiência de seus adeptos. Na tradição indiana, surgem duas instituições, a do brâmane e a do guru, um está para a religião, enquanto que o outro está para a mística, ainda que, na prática, haja um grande diálogo e conexão entre as duas instituições.

A Índia produziu um extenso universo de darśanas, incluindo os mais próximos da ortodoxia religiosa, que adotaram o dharma em suas concepções, como muitas linhas de vedānta; darśanas que romperam com a ortodoxia bramânica, como o bauddha (budismo); darśanas materialistas, como o cārvāka, e assim por diante. No meio deles todos, o darśana do guru Patañjali, a quem se atribui a autoria do Yoga-sūtra, e os darśanas tântricos, como o Pratyabhijñā, que muito nos ajudam a compreender o yoga que se pratica na modernidade.