Sobre yoga ser uma filosofia

Gaṇapati, ou Gaṇeśa, deus tutelar dos escribas , os quais tiveram um papel fundamental na transmissão do conhecimento antigo até a era atual

Por: João Carlos Barbosa Gonçalves

Dentre as palavras utilizadas para definir o que é yoga, talvez a palavra “filosofia” seja a mais constante e, talvez, a mais expressiva, pelo fato de demonstrar que yoga é algo mais abrangente do que o cuidado com corpo e a prática dos exercícios físicos que tanto têm caracterizado essa prática milenar desde que ela vem se popularizando, há pouco mais de um século, nas culturas não indianas.

É muito significativo, para o praticante que frequenta as aulas semanais de yoga, o paradoxo entre o foco permanente no corpo e a definição de que yoga seja uma filosofia. Quando ele procura compreender o que se pretende dizer com essa definição, quase sempre se depara com as ideias de “filosofia de vida” e “filosofia ética ou moral”. Na primeira definição, elegem-se fatores relacionados às opções de vida relativas ao que os praticantes modernos entendem por cultura do yoga, tais como contato com a natureza, vegetarianismo, liberdade com relação ao próprio corpo, entre outros ideais. Na segunda definição, propõe-se a conhecida lista de 10 princípios éticos do autor conhecido como Patañjali, como uma forma de contrapartida filosófica à prática de posturas (āsana), de exercícios respiratórios (prāṇāyāma), entre outras mais.

Quando penetramos no universo antigo das filosofias indianas, pela via dos textos sânscritos, encontramos temas que vão muito além dessas duas formas pelas quais a conceitualização do yoga tem passado. No contexto indiano antigo, as várias escolas de pensamento conhecidas como darśana (yoga de Patañjali e tradições tântricas que fecundaram o haṭha-yoga aí incluídas), desenvolveram-se ao longo de séculos, com seus gurus, seus textos e seus debates. As reflexões produzidas nesse rico ambiente cultural, onde metafísica, mística, ética, estética e religião se mesclavam, são de extremo interesse para nossas reflexões atuais. São, além disso, para o praticante de yoga, um belo nutriente para as práticas meditativas.

Seguem algumas das importantes temáticas presentes no yoga, que podem ajudar muito no processo de autoconhecimento e desenvolvimento humano, nas esferas material e espiritual:

1) “meios de válidos de conhecimento” – na Índia antiga, as tradições filosóficas sistematizaram as formas pelas quais o ser humano tem construído seus saberes, sejam técnicos, filosóficos, artísticos ou religiosos. Para sintetizar, a grande reflexão é “utilizamos os sentidos, a lógica e a confiança na palavra dos sábios para conhecer os objetos do mundo, mas o que fazer quando nosso objetivo é conhecer o conhecedor?”. Daí, já se pode imaginar a importância que as práticas de introversão têm nesse cenário. O conhecedor é um objeto de conhecimento diferenciado. Há um jogo de dualidade: quando vejo o conhecedor, só estou vendo uma imagem e não o próprio conhecedor; quando não o vejo e vejo outros objetos, estou me realizando enquanto conhecedor. Que fazer? São muitas muitas as respostas e as orientações disciplinares.

2) “causa material e causa instrumental” – algo que faz muito sentido nas várias culturas é pensar na existência de um/uma deus/deusa, uma essêncial imaterial criadora, uma consciência universal ou qualquer que seja o termo utilizado. Nas tradições indianas, discute-se se essa causa é um instrumento que cria o universo a partir de outra “matéria-prima” que não é ela mesma ou se o universo é criado, ou melhor emanado, a partir da própria causa criadora. Dito em linguagem comum: se deus é causa material do mundo, o mundo emana de deus, portanto, o mundo está contido em deus e deus está contido no mundo. Essa visão é a responsável pelo surgimento das práticas corporais que hoje conhecemos como haṭha-yoga. É nela que encontramos o fundamento da ideia de o corpo ser um microcosmo em potencial.

3) “particulares e universal” – muitos dos pensadores da Índia antiga penetraram no universal das coisas por meio das experiências particulares e deixaram registrados seus métodos em muitas obras sânscritas. Se há uma essência universal em todos os objetos particulares, podemos “treinar” a nossa percepção para ver isso. Muitas dessas linhas de pensamento utilizaram-se dessa ideia: o salto pequeno e simples, do particular para o universal, pode ser dado por qualquer um, desde que se dedique ininterruptamente a ver a força única que está em todos que percebem e tudo que é percebido. O universal dos objetos apreendidos pelos 5 sentidos e o universal da consciência que os apreende são objetivados por muitas das correntes filosóficas da Índia.

4) “consciência” – por fim (para o propósito deste texto, mas esses 4 ítens nem de longe esgotam o assunto), a consciência. Os sistemas filosóficos da Índia antiga foram grandes investigadores da consciência. Essa essência que antecede o pensamento linear, a fonte dos atos cognitivos, a base de todas as nossas experiências, a matriz e a meta das percepções sensoriais… A investigação da consciência, seja por meio de conceitos ou por meio de mergulhos de introversão, é a grande meta daquilo que hoje chamamos de yoga. A metáfora da luz é muito presente para falar dessa força. O entendimento dessa luz levou a diversas teorias e diversos métodos práticos para mergulhar nela e ser absorvido por essa realidade imutável que permite a existência de todas as realidades mutáveis.

Esse breve repertório, “meios válidos de conhecimento”, “causa material e causa instrumental”, “particulares e universal” e “consciência”, pode ser um bom ponto de partida para apresentar o que é o yoga e de que forma ele pode se constituir como uma contribuição para as buscas particulares de cada indivíduo, independentemente de suas crenças ou objetivos pessoais.

Nesse sentido, conhecer esses conceitos, praticá-los, com o objetivo de perceber a própria presença por meio deles, é uma forma de yoga muito profunda e ao mesmo tempo acessível, desde que haja interesse sincero por parte do adepto. Isso fará com que as definições de yoga se tornem mais gratas ao pensamento que herdamos da Índia, no sentido de permitir que a voz dos antigos gurus se apresente quando falarmos das experiências humanas a que eles tiveram acesso.