Profissão de professor de yoga/ioga

Circulam pela rede projeto de lei e abaixo-assinado contrário a esse projeto, o qual propõe regulamentação da profissão de professor de yoga (clicar aqui para ler o projeto).

slide-11Com relação ao projeto propriamente dito, ele peca em sua redação: por problemas de cronologia na história do yoga, por uma definição subjetiva do que é ioga [sic], por um detalhamento que pretende justificar a profissão do ponto de vista da saúde apenas, por um mau uso terminológico do sânscrito e por uma posição pouco clara sobre quem poderá exercer a profissão, caso o PL seja aprovado. Esse é o elemento fundamental: ao regulamentar o exercício da profissão, o projeto tenta estabelecer um critério para validar a formação do professor de maneira superficial e antidemocrática, justamente por não examinar o atual estado do tema junto aos profissionais interessados.

Com relação ao atual estado do tema em nosso país, a saber, profissão/profissionalização do professor de yoga, nos grupos existentes, seja as associações, as uniões ou as alianças, há uma forte tendência monarquista. Ou são fechadas em si mesmas, com visão estreita de suas linhas, sem um caráter que, de fato, possa contribuir para discussões sociais abrangentes no que diz respeito à atuação profissional do professor de yoga, ou, quando se pretendem abrangentes, não possuem representatividade em suas direções. Portanto, o Brasil está longe de construir um conselho capaz de legitimar ou deslegitimar cursos de formação de professores de yoga de forma universal.

Há vinte anos, tenho contato com textos sânscritos antigos e, há cerca de 12 anos, trabalho com formação de professores de yoga, sob as mais diversas vertentes modernas. Atendo a todo tipo de convite, de qualquer procedência ou linhagem. Se conquistei alguma experiência nesses anos, foi na direção de perceber o quanto é eficiente a atuação desse profissional, qualquer que seja a linha, por ver e ouvir constantemente o quanto o yoga beneficia os alunos que fazem as práticas semanais, em todos os aspectos humanos envolvidos. Ou seja: o testemunho de minha experiência diz que se trata de uma profissão com objetivos realizáveis e que sua formação se dá sob formas extremamente variadas.

De um ponto de vista estritamente objetivo, por tratar-se de legislação, que é o que interessa aqui, ser professor de yoga é uma profissão como qualquer outra, por envolver remuneração, por prestar serviços e gerar um mercado (diferente de guru, que não é o caso desta discussão pública). As discussões públicas sobre a profissionalização devem ser tratadas sem pudores ou hipocrisia. Do ponto de vista social, trata-se de um mercado sim, há uma relação de troca financeira que não pode ser tratada como tabu, sob o risco de perder-se a autoestima profissional.

Há várias formas de encarar o yoga, da mais metafísica à mais materialista (ambas, nos sentidos técnicos dos termos). Há várias vertentes de especialização, que vão pelo âmbito da saúde, pelo âmbito da filosofia e mística indianas antigas, pelo âmbito da psicologia, do (des-)condicionamento físico e pelo âmbito da devoção mística. Legislar a respeito da formação do professor deve envolver o caráter amplo do yoga e a consideração relativa à especialização dos professores.

Dado o caráter abrangente do yoga e a ausência de uma instituição política que interaja democraticamente com as diversas formas de lidar com o yoga, se houver regulamentação da profissão, tal regulamentação deve partir de uma definição redundante do que vem a ser “professor de yoga”: “professor de yoga é aquele que dá aulas de yoga”. Como deverá ser a de escritor, a de tradutor e a de outros profissionais: “tradutor é quem traduz”, “escritor é quem escreve”, etc. Ou qualquer outra definição social do que é a profissão, sem entrar no mérito de quem pode e de quem não pode exercê-la, o que é impossível no atual momento.

Enfatizo que ver o problema sob seu caráter social e prático é necessário nas presentes circunstâncias, isto é, o problema deve ser tratado frontalmente, sem a busca dos guarda-chuvas das associações, uniões e alianças, como uma forma de proteção individualista, mesmo que coletiva. Acredito que devemos fazer o possível para que todo profissional possa manter-se em atividade, apenas por sua competência e dedicação, e não porque tenha cedido ao encanto dos grupos que darão um verniz de institucionalidade.

João Carlos B. Gonçalves (em 5 de abril de 2016)