Sobre a palavra dhāraṇā no contexto tântrico

Por: João Carlos Barbosa Gonçalves

Em sânscrito, há inúmeras palavras para “meditação” e a palavra dhāraṇā é uma delas. Dito de outra forma, essa ideia que associamos à palavra meditação em português tem inúmeras abordagens técnicas e palavras que a expressam em sânscrito.

O termo dhāraṇā é formado pela raiz dhṛ, que é empregada com os sentidos de “suportar”, “manter”, “guardar”, “reter”, etc. Ele tem duas formas, a neutra: dhāraṇam e a feminina: dhāraṇā, sendo a última a mais utilizada.

Essa palavra ganhou relativa popularidade entre os praticantes de yoga devido ao texto conhecido como Yoga-sūtra (YS), composto no início do primeiro milênio, ter sido utilizado desde o início do século XX d.C. como uma espécie de “escritura” do yoga, pelos professores e gurus indianos que adaptaram o yoga ao público leigo, sejam indianos ou não.

Por essa razão, o conceito que essa palavra expressa nesse texto tornou-se consensual entre os professores de yoga na modernidade, remetendo à ideia de “concentração”, como uma antessala ou pré-requisito da “meditação” (dhyāna). No esquema dessa obra, dhāraṇā vem depois da prática conhecida como pratyāhāra, que significa recolhimento (dos sentidos). Assim, precisa haver “recolhimento dos sentidos”, para haver “concentração”, até que esta se torne a “meditação” e, por fim, o adepto alcance o estado conhecido como samādhi.

Escrevo esse breve texto com a intenção de lembrar que essa palavra é de uso universal na língua sânscrita e cobre conceitos de meditação/contemplação/concentração/atenção diferentes, conforme a abordagem filosófica e a escola que os emprega.

Vale a pena mencionar que o YS é o texto fundador de uma, entre diversas correntes filosóficas indianas, e não abrange todas as práticas que são chamadas de yoga. Exemplo que interessa aos adeptos modernos é a metodologia do haṭha-yoga, que pouco tem a ver com esse texto, sendo uma das vertentes tântricas das práticas de libertação indianas. Nesse contexto, o Tantra adota uma visão ética e metafísica absolutamente distinta daquela que encontramos no YS.

Em textos tântricos, o emprego da palavra dhāraṇā, paralelamente à sua raiz dhṛ (p.ex. dhārayet, “deve-se contemplar”), remete às diversas práticas que servem para alcançar estados meditativos que são presenciados mesmo no estado de vigília, isto é, com os sentidos exteriores em atividade. Por exemplo:

“O yogin que está unificado com o prazer incomparável de desfrutar uma música ou algo desse âmbito, sob essa identificação, com a elevação da mente, há de tornar-se
Bhairava (Consciência Universal)” (Vijñāna-bhairava-tantra, 73)

Nesse campo de experiência mística, não se busca um estado de consciência que se oponha ou seja excludente à vivência no mundo, uma vez que, na escola tântrica à qual essa obra pertence, o Śivaísmo da Caxemira, percipiente, percepção e perceptíveis são uma única realidade em essência. Por isso, o ideal a ser conquistado é a consagração da percepção: ver cada unidade na totalidade e a totalidade nas apenas aparentemente diversas unidades. Isso significa abrir mão da individualidade limitada, para que a consciência universal seja absorvida na consciência individual.

Esse exemplo – entre muitos outros – serve para apresentar o fato de que a palavra dhāraṇā, e também o conceito de meditação por ela expresso, nem sempre está associado à suspensão da mente, dos cinco sentidos ou da relação com o mundo. Se a dinâmica do mundo é śakti (potência que manifesta a consciência universal), não há porque o adepto afastar-se dela. Ele há de transformar sua cognição e percebê-la em tudo que existe.

Para tal fim, as práticas de dhāraṇā são suas grandes aliadas, são meios (upāya) para o adepto atingir novos patamares de consciência e, uma vez firmado num novo patamar de consciência, ele busca um ainda mais elevado. Segue assim, até alcançar o estado de Bhairava, ou Bhairavī.