Os cinco atos de Śiva

Por: João Carlos Barbosa Gonçalves

Noite no Rio Ganges, em Varanasi

No Śivaísmo monista da Caxemira, o monismo é entendido de uma forma radical, de modo que criador e criação são uma única realidade, isto é, o mundo não difere da consciência divina que o cria, ou dito mais apropriadamente, que o emana – Deus emana o mundo.

Trata-se, dessa forma, de um monismo extremo (paramādvaya), segundo o qual, a mesma Luz de que consistem os objetos dos sentidos, tal Luz é a própria presença que os percebe por meio dos cinco sentidos. Nada está fora da realidade, “por não existir, nesse mundo, nada que não seja consciência”, iha acetitasya kasyāpi sattvābhavāt (Śiva-sūtra-vimarśinī, 1.1).

Assim, o esquema tradicional do hinduísmo – criação, sustentação e destruição – ganha outros contornos nessa escola de pensamento. O mundo emana de Śiva e nele é reabsorvido. A palavra caitanya, que significa consciência, no sentido universal desse conceito, é uma das formas de nomear Śiva, que é o substrato preexistente a todas as manifestações individuais de consciência, e nelas presentes.

A consciência, que é Śiva, manifesta o mundo e também reabsorve o mundo. Em meio a esses dois atos, ela o sustenta. No ato de sustentar, a consciência universal oculta-se, já que o mundo parece dual a todas as consciências individuais que o percebem. Porém, para alguns, o mundo mostra-se idêntico a Śiva; eis o quinto ato: a graça.

Dessa forma, no Śivaísmo monista, contemplamos os cinco atos de Śiva: a emanação, a sustentação, a reabsorção, o ocultamento e a graça.

Como contemplamos isso? De acordo com a obra Pratyabhijñā-hṛdaya, isso pode ser feito por meio dos nossos próprios atos de cognição. Ou seja, vemos um objeto, portanto, ele aparece para nós como emanação (sṛṣṭi). Quando mantemos os olhos abertos, observando-o, sua aparição sustenta-se (sthiti). Ao migrar nossa percepção de um objeto a outro, o primeiro objeto desaparece, isto é, ele é reabsorvido (samhāra). Enquanto vemos um objeto e o concebemos como distinto de nós, Śiva oculta-se (vilaya). No entanto, se percebemos sua natureza como interior e não exterior, vendo-o queimar no fogo da consciência, ocorre a graça (anugraha), a grande revelação.

O fluxo permanente dos cinco atos de Śiva, em meio às cognições comuns da vida, torna-se natural ao adepto, como uma contemplação contínua da identidade que existe entre a consciência universal e a consciência individual.