Lua Nova, Śiva-rātrī e os Intermediários como foco de meditação

Por: João Carlos Barbosa Gonçalves

Yoni-liṅga, ou Śiva-liṅga, do altar central (garbha) de um templo do complexo de templos da cidade de Khajuraho.

No campo da meditação, muitas são as técnicas, objetivos e embasamentos filosóficos. Há, no entanto, boa recorrência no uso dos intermediários como focos de meditação.

Dentro do Śivaísmo monista da Caxemira, bons exemplos são: concentrar-se no espaço entre as sobrancelhas; o limite entre dois pensamentos; o estado de consciência entre o sono e a vigília; o amanhecer ou entardecer; o ponto de transmutação entre inspiração e expiração; o canal central do corpo que neutraliza a lateralidade direita-esquerda; e o limiar entre o som e silêncio na entoação de mantras, como o OM.

Cada um desses exemplos lida com aspectos técnicos específicos que têm em comum a noção de “intermediário”. Entre dois objetos do mundo concreto, elege-se o intermediário, isto é, nem um nem outro. É no intermediário que o meditante encontra o portal para outro estado de consciência, ou o espelho no qual pode contemplar seu próprio ser sob uma presença mais próxima da consciência universal.

A razão disso é o fato de os intermediários serem como uma pausa do mundo manifesto, os intermediários são momentos, condições ou locais em que a manifestação não se apresenta, ou se apresenta de forma ainda sutil.

Para entender isso, basta lembrar que, no pensamento tântrico, a força da śakti manifesta o mundo em uma escala que vai do sutil ao denso, do uno ao múltiplo. Dessa forma, a śakti está presente em tudo que é manifesto e dual, mesmo sendo imanifesta e não-dual.

Portanto, a contemplação dos estados intermediários, quando não é dia nem noite, nem lado esquerdo nem lado direito, nem a energia da inspiração nem a energia da expiração, e assim por diante, é uma circunstânscia em que entramos em contato com o aspecto não-dual e não aparente dos objetos exteriores. Simetricamente, esse contato permite que o meditante se estabilize no aspecto também não-dual e não aparente de seu ser.

É dessa forma que tais práticas levam à aparição interna, já que, nos intermediários, a aparição externa manifesta-se de forma menos intensa.

É por essa razão também que, no śivaísmo, de uma maneira geral, elegemos a Lua Nova como um momento especial de meditação e reverência. No momento da Lua Nova, a Lua e o Sol estão mais próximos, o que significa que a Luz da Consciência que vê (Sol) e os objetos que são vistos (Lua) estão mais próximos da unidade, em um nível mais próximo, portanto, do imanifesto.

Daí que a celebração conhecida como Śiva-rātrī, Noite de Śiva, seja vivenciada ao redor da Lua Nova, quando a noite está mais escura: mundo imanifesto e Śiva manifesto.