A prosa dos comentários sânscritos – “Scholastic Sanskrit”

por João Carlos B. Gonçalves

scholastic-sanskritComo se sabe, a cultura sânscrita manteve e mantém uma forte tradição de comentar os textos que considera importantes. Essa tradição resulta, na literatura, em obras que são fundamentais para nossa atual compreensão dos textos antigos. Esses comentários são centrais na cultura letrada, e em alguns contextos também oral, da civilização indiana. As escolas de pensamento místico, filosófico e religioso transmitem, preservam e ampliam as interpretações presentes nessas obras, as quais estruturam a instrução a ser conduzida geração após geração, em sessões de estudo, coletivas ou privadas. A linguagem em prosa desses comentários tem certas peculiaridades que precisam de instrução especial, visto que esses textos constituem um gênero textual com construções sintáticas e usos gramaticais bastante específicos. Uma excelente sistematização do modelo seguido pelos autores dos comentários está no livro: Scholastic Sanskrit – A manual for Students, br /de Gary A. Tubb e Emery R. Bose. br /New York: The American Institute of Buddhist Studies, 2007.

Eis a síntese das funções de um comentário, segundo o Scholastic Sanskrit (p. 3-4):

“0.2 As cinco funções de um comentário

Na identificação das úteis funções oferecidas pelos comentários sânscritos, nós fomos guiados pela lista das cinco características dos comentários dadas em um verso do Parāśarapurāṇa, que é citado no Nyāyakośa:

pada-cchedaḥ padārthoktir vigraho vākya-yojanā |
ākṣepeṣu samādhānaṁ vyākhyānaṁ pañca-lakṣaṇam||

Essas cinco funções correspondem, nessa mesma ordem, aos problemas com que os estudantes mais frequentemente se deparam para decifrar um texto sânscrito:

0.2.1 Padaccheda

Divisão de palavras, separação das palavras de um texto: as regras de samdhi e as peculiaridades da escrita devanágari geram o primeiro problema que o estudante enfrenta ao tentar traduzir um texto. Antes de iniciar a procurar as palavras, é necessário saber onde uma palavra termina e a seguinte inicia. Qualquer comentário que não seja muito extensivo pode resolver esse problema de imediato até mesmo para o estudante novato, mesmo que muitos estudantes não conheçam suficientemente a natureza de um comentário para usufruir dessa função elementar.

0.2.2 Padārthokti

Estabelecimento o significado das palavras, paráfrase: uma vez que se determinou quais são as palavras do texto, o problema seguinte é encontrar o sentido apropriado no dicionário. Visto que muitas palavras do sânscrito possuem muitos sentidos possíveis, a parte mais frustrante dos estudo do sânscrito para muitos estudantes nos seus anos iniciais é a necessidade da atividade trabalhosa de escrever ou guardar mentalmente as várias acepções, para cada palavra, até que se possa determinar qual dos sentidos possíveis é o mais apropriado para cada palavra no contexto dado. Ainda que seja verdade que as glosas oferecidas pelos comentadores possam ser tão pouco familiares para o estudante quanto a palavra que é glosada, mesmo um estudante novato que é confrontado, por exemplo, com a palavra bhāskaraḥ no texto sânscrito, pode achar uma glosa simples como bhāskaraḥ sūryaḥ acessível o suficiente para economizar um pouco do tempo gasto na leitura dos dicionários. Em um nível mais profundo, evidentemente, essas glosas sempre oferecem alguma informação que é difícil ou impossível de encontrar nas obras de referência normais, ou que, ao menos, é mais precisa em sua adequação ao texto que está sendo comentado.

0.2.3 Vigraha

Análise dos sintagmas gramaticais (isto é, dos compostos nominais e das raízes derivadas): aqui os dicionários em geral não têm utilidade, especialmente onde os compostos nominais estão envolvidos. O tempo gasto para aprender a entender as fórmulas básicas de análise utilizadas pelos comentadores são úteis não apenas porque torna possível usufruir dessa função dos comentários, mas também porque é um bom modo de assimilar os diferentes tipos de construções complexas usadas em sânscrito.

0.2.4 Vākyayojanā

Construção das frase, demonstrando a construção do texto: mais uma vez, o estudante pode evitar o tedioso procedimento de tentar imaginar o texto em várias etapas, se somente os princípios básicos pelos quais os comentadores repetem as palavras do texto comentado forem compreendidos. Esses princípios são absolutamente simples, mas até que se sejam explicados aos estudantes, os comentários parecem ser uma massa de explicações desconexas.

0.2.5 Ākṣepasamādhāna

A resposta às objeções: essa parte do comentário diz respeito às idéias contidas no texto original mais do que às suas palavras. Consequentemente, difere de dois modos das quatro funções precedentes. Primeiro, nesse nível, um comentário vai além de um exegese estrita e passa a ser um tratado argumentativo em si mesmo. Segundo, essa parte do comentário é mais baseada no estilo do debate oral do que no estilo da instrução oral, de modo a utilizar um arsenal diferente de vocabulário, sintaxe e organização. A compreensão desse estilo pode ser aplicada para a leitura de qualquer texto composto em um sânscrito expositivo, seja um comentário ou não.”

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