A importância dos comentários sânscritos

por João Carlos B. Gonçalves

Uma das concepções fundamentais da tradição literária antiga da Índia é a de que a compreensão de um texto é uma herança tão importante quanto o próprio o texto. Explicando em outras palavras: nessa tradição, houve um esforço tão grande em manter os próprios textos quanto os textos que os comentam. Dessa forma, temos, na literatura sânscrita, o texto-base e o comentário.

Por exemplo, existe o Yoga-sūtra, composto em sânscrito por Patañjali (estima-se que sua composição tenha ocorrido entre II e V d.C.). E existem outros textos, compostos também em sânscrito, que comentam o Yoga-sūtra de Patañjali, tais como o Yoga-bhāṣya (cerca de V/VI d.C.), de Vyāsa; a Tattva-vaiśāradī (cerca de IX d.C.), de Vācaspati Miśra; o Yoga-vārttika (cerca de XV d.C.), de Vijñāna Bhikṣu; e o comentário contemporâneo chamado Bhāsvatī, feito pelo yogue adepto da filosofia Sāṃkhya Hariharānanda Āraṇya (1869-1947), entre outros.

A tradição comentatorial indiana não se limita apenas aos textos que hoje são chamados genericamente de filosóficos. Todo tipo de texto, em tese, recebe comentários na tradição sânscrita, seja nas artes, como poesia, teatro e música; sejam os textos litúrgicos, bramânicos, tântricos, devocionais; sejam os técnicos, como astrologia, matemática, gramática, etc. Para exemplificar qualidades significativas dos comentários de textos relacionados ao que se chama hoje em dia de filosofia indiana, podemos citar as 3 seguintes funções: (a) o esclarecimento dos sentidos elementares das palavras empregadas no texto-base, (b) a explicação de conceitos que fazem parte de um contexto específico, (c) o aprofundamento da compreensão de um sistema de pensamento.

(a) Exemplo de esclarecimento dos sentidos elementares das palavras.
No Yoga-sūtra, Patañjali enumera os obstáculos que o yogue encontra em seu processo rumo ao samādhi:

vyādhi-styāna-saṃśaya-pramādālasyāvirati-bhrānti-darśanālabdha-bhūmikatvānavasthitvāni citta-vikṣepās te ‘ntarāyā | 1.30
“Aquilo que distrai a mente – doença, debilidade, dúvida, displicência, letargia, ausência de desapego, percepção instável, incapacidade de obter estado de consciência e instabilidade – são os obstáculos.”

Lemos no comentário de Vyāsa, o Yoga-bhāṣya, uma explicação do sentido de cada um dos termos utilizados na lista dos obstáculos.

(1) doença (vyādhi) é a desordem dos sentidos, dos tecidos e dos fluidos;
(2) debilidade (styāna) é a inatividade da mente;
(3) dúvida (saṃśaya) é o pensamento que se apega aos dois pontos de uma questão, “pode ser e pode não ser”;
(4) displicência (pramāda) é a ausência de prática rumo ao samādhi;
(5) letargia (ālasya) é a presença de peso no corpo e na mente;
(6) ausência de desapego (avirati) é uma ansiedade da mente, que a leva aos objetos dos sentidos;
(7) percepção instável (bhrānti-darśana) é o conhecimento falso;
(8) incapacidade de obter estado de consciência (alabdha-bhūmika) é não chegar ao estado de samādhi;
(9) instabilidade (anavasthitva) é a não-permanência da mente no estado que foi obtido.

Esse esclarecimento é de extrema valia tanto para a compreensão do sūtra de Patañjali como para o tradutor, que, se seguir a orientação do comentador, poderá encontrar mais precisão e coerência na escolhas dos termos que utilizará na língua de chegada.

(b) Exemplo da explicação de conceitos que fazem parte de um contexto específico.
No texto de Patañjali, há o conceito de svādhyāya. Essa palavra é formada por sva (próprio) + adhyāya (estudo). Gera-se assim o sentido de “estudo próprio”, isto é, a adoção de um texto, ou mais que um, como forma de orientação e condução das disciplinas espirituais do yogue. No comentário de Vyāsa (Yoga-bhāṣya, 1.1), assim se explica o conceito de svādhyāya:

svādhyāya é a recitação dos mantras de purificação (pavitra-mantra), tais como Praṇava, e também o estudo (adhyaya) dos tratados de libertação (mokṣa-śāstra).”*

Sob essa perspectiva, pode-se estabelecer a tradução do terma sânscrito svādhyāya como “estudo”, “estudo dos textos da própria tradição”, etc.

(c) Exemplo de aprofundamento da compreensão de um sistema de pensamento.
Um mesmo texto-base pode servir como orientação para sistemas de pensamento distintos, e mesmo divergentes. Há muitos sistemas de pensamento na Índia, que polemizam entre si e estabelecem suas concepções de forma argumentativa e bastante estruturada. Portanto, quando se deseja o aprofundamento em uma determinada escola mística ou filosófica, é necessário estudar os comentários pertencentes a ela.

Utilizando como exemplo também o comentário Yoga-bhāṣya, de Vyāsa, podemos ver como o comentador apresenta o célebre sūtra que define o termo yoga (1.2) segundo a terminologia da escola de pensamento Sāṃkhya, que estabelece a relação humanidade-materialidade-espiritualidade sob os conceitos de tri-guṇa, prakṛti e puruṣa:

Yoga-sūtra:
yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ | 1.2
“Yoga é a suspensão das atividades da mente.”

Yoga-bhāṣya:
(…) Pois a mente é dotada dos três guṇas, visto que se comporta com clareza, movimento e estaticidade. O sattva na mente, cuja natureza é a clareza, misturado com rajas e tamas, leva ao desejo pelo poder e pelos objetos dos sentidos. E ela, ligada ao tamas, torna-se sem virtude, ignorante, dependente e impotente. Quando está ligada somente a rajas, o envolvimento pela ilusão desaparece completamente, fica reluzente, e se torna virtuosa, independente e potente. E, ao perder as impurezas dos traços de rajas, permanece em sua própria forma, torna-se a úniva revelação da distinção entre o sattva e o puruṣa, tornando-se contemplação da nuvem de virtude (dharma-megha). (…)**

Nesse repertório de 3 exemplos, está contida apenas uma diminuta amostragem do quanto são importantes os comentários tanto dentro da tradição indiana como para aqueles que desejam compreender razoavelmente os textos antigos compostos em sânscrito, os quais foram desde sempre objetos de intensa reflexão.

स्वाध्यायः प्रणवादिपवित्राणां जपो मोक्षशास्त्राध्ययनं वा |

** चित्तं हि प्रख्याप्रवृत्तिस्थितिशीलत्वात् त्रिगुणम् | प्रख्यारूपं हि चित्तसत्त्वं रजस्तमोभ्यां संसृष्टमैश्वर्यविषयप्रियं भवति | तदेव तमसाऽनुविद्धमधर्माज्ञानावैराग्यानैश्वर्योपगं भवति | तदेव प्रक्षीणमोहावरणं सर्वतः प्रद्योतमानमनुविद्धं रजोमात्रया धर्मज्ञानवैराग्यैश्वर्योपगं भवति | तदेव रजोलेशमलापेतं स्वरूपप्रतिष्ठं सत्त्वपुरुषान्यताख्यातिमात्रं धर्ममेघध्यानोपगं भवति |

♦♦♦♦♦

Sugestão de leitura: